DESASSOSSEGO, COM TODOS OS ESSES POSSÍVEIS.

E não é que em meio a tantas atividades importantes, eu arranjei disposição e tempo para comemorar o aniversário da minha comadre e melhor amiga?
Minha maquiagem ficou pálida ao ser requisitada, assim como as sandálias de salto.
Depois de ter acordado as quatro e meia da manhã, de ter encarado o plantão com direito à dona Maria Luiza e tudo o mais, saí toda linda e maravilhosa, pra assistir um show que acabou antes mesmo de eu chegar.
Foi bom ser olhada. Não que eu houvesse me esquecido desta sensação. O que eu não não lembrava era que faz um bem enorme ao ego machucado.
Mas não enche barriga de ninguém, né?!
De que adianta tantos olhares, se estes não enxergam nada além da bunda, do decote, das coxas? Por dentro da embalagem tem muita coisa, e talvez eu preferisse que minha alma chegasse antes do meu corpo. As pessoas nem tem mais tempo para se conhecer, e muito, muito antes de saber se o outro prefere o feijão por cima ou por baixo do arroz, já era, passou, partem para outra. De quem estamos nos escondendo na verdade? De nós mesmos, de nós mesmos.
Pessoas são espelhos.
No espelho d’água, não consigo ver meu rosto. Este se revela apenas através dos outros olhos.
E de que adianta tantos olhares, se o único par de olhos que me deixaria feliz ao me fixar não brilha perto de mim?
Eu me sinto tão sozinha.


Não se Mate

Carlos Drummond de Andrade

Não se Mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija
depois da amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

E isso lá é astral para uma sexta feira?
Ahhhhhhhhhhhh…
Dias melhores virão.

Tomar sibutramina dá nisso.