E QUE DEUS ABENÇOE A TODOS NÓS!

Dez e pouca da manhã de ontem, no hospital.

Emergência fechada. Motivo: Lotação.

Mas os doentes continuam chegando.

O maqueiro traz um, deitado numa maca, e ao lado uma mulher. Esposa, talvez. Pessoas mau-tratadas, sujas. O maqueiro entra direto com o cara, corro atrás para saber o que significa aquilo. Não gostei do sujeito, nem da esposa. Ele me olhou de um modo estranho. Pergunto ao médico  se posso admitir o cara. Sim, posso admitir.

Enquanto tomo nota do nome, da data de nascimento e essas coisas, a acompanhante fala impropérios, grita, chora, percebe que o sujeito está morto e vai embora, levando os documentos.

Twitter: “tem dias que eu simplesmente odeio meu trabalho com todas as forças.”

Deu uma confusão danada. Não podíamos comprovar que aquele nome correspondia àquela pessoa. Direção do hospital acionada, polícia acionada, e eu precisando repetir tudo o que aconteceu desde a chegada do homem até a partida da mulher*. E telefone, e doente, e coisa e tal. Uma dor de cabeça, um sono, a boca abrindo, o estômago enjoado. Vontade absurda de estar em casa. Vontade absurda desair dalí voando, uma borboleta serena num jardim florido.

Entra uma senhora, umas duas da tarde. Eu não conseguia falar com ela, de tanta abrição de boca. Foi quando a senhora disse: “você tá com olhado”

Respondi que não tinha nada para despertar a inveja alheia, sorrindo. Um senhorzinho bem velhinho, mas limpinho, cheiroso, e com uma família muito educada precisava Fazer um exame, mas não aparecia maqueiro. Fui procurar um maqueiro de boa vontade.

Em cinco minutos voltei. Boa.

Sem dor, sem calafrios, sem enjôo. Tranquila, alegre, prestativa e carinhosa. Sem conseguir maqueiro, peguei o velinho e falei: “vamos dar um passeio?” E fomos, e ficamos amigos. So cute!

Dali pra frente, resolvi todos os pepinos que me apareceram, fui realmente útil, coisa que me faz sentir bem. A cada pessoa satisfeita, um “Deus te abençoe, minha filha”.

Sorrisos, energia, amor, paz.

Passo por dentro da enfermaria e encontro a senhorinha que falou do olhado. “Tá boa?” Sim, estou ótima. “É que eu te benzi, fiz uma prece por você enquanto estive ao seu lado.”

Muito, muito obrigada.

Ao final do plantão, uma mãe com a filha doente.

” Moça, que Deus te abençoe e abençoes seu trabalho. Que você permaneça aqui, pois ainda ajudará a muitos com seu sorriso.”

Chorei.

O amor vem de diversas maneiras até cada um de nós.

*PS: O hospital contatou a associação de moradores da comunidade carente onde fica o hospital. Reconheceram o sujeito, que não precisou pagar o mico de ir pro IML como indigente. Enquanto eu repetia a história para as mil pessoas que me indagaram, entendi por que não gostei do olhar dele: ele já estava morto!! tadinho. Que Deus o abençoe também, e o receba em seus braços.

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A ÚLTIMA QUE MORRE.

Hoje não foi a lua quem me deu bom dia (até porque estamos na lua nova), nem tampouco alguma estrela.
Foi essa rosa sob a chuva quem me deu bom dia em primeiro lugar. Logodepois minha mãerzinha amada levou uma caneca de café na cama para mim.
A vida não é maravilhosa?

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Que se dane se não tenho dinheiro, nem namorado.
Tenho mãe, e isso é uma grande coisa.
Hoje é um dia especial, pois ela retornou ao trabalho depois de duas semanas mal de saúde.
Para propagar a corrente, acordei uma filha de cada vez, com carinhos e palavras extremamente doces, aquelas que todo mundo gosta de ouvir ao acordar.
Mas o que eu falei de mais legal, eu vou repetir aqui para vocês:
“Acorde para um novo dia cheio de novas aventuras!!!”
E não é?
Nem que seja a aventura de ter paciência, calma, resignação e esperança.
Tudo vai melhorar!!

FROST YOURSELF!!!*

Escrevo do hospital, a internet foi religada!! U-huuuuuuuuu!!
E eu que estava com uma necessidade quase patologica de escrever, ao ponto de acordar às duas e meia da manhã, com vontade de ligar o computador. O que eu ia escrever?
Ia escrever que estava (reparem bem, estava) angustiada, com a sensação de um tiro de canhão, bem no meio do peito.
Ao invés de sair da cama quentinha, entreguei meus medos ao amigo Jesus, chorei, conversei, falei da minha dificuladade em ter paciência e em esperar. Nessa hora, chovia bastante.
Todos os dias da vida da gente são dias abençoados. Todos os dias são grandes dias, mesmo que não pareça. O simples fato de o nosso corpo estar funcionando harmoniosamente já é uma grande coisa.
Acordei naquela hora pornográfica para trabalhar (quatro e meia). Estrelas mais que brilhantes, uma lua sorridente, igual aos desenhos das minhas filhas. Apesar da hora, do frio, de ter que sair do lado da minha família para passar 16 horas longe, eu sorria.
E aqui estou, linda, cheirosa, alegre como sempre, usando as minhas armas secretas.
Armas secretas?? Como assim?
Vou explicar: eu adoro uma literatura subversiva. E a minha escritora subversiva preferida é a Clarissa Pinkola Estés, aquela, do “Mulheres que Correm com os Lobos”, sabe?!
Hoje eu estou lendo “A Ciranda das Mulheres Sábias”. Olha que lindo o sub-título: “ser jovem enquanto velha, ser velha enquanto jovem”…
E não é exatamente o que eu quero?? Olhos de anciã, pele de bebê, rosto de anjo…e um corpinho pro pecado, né não?! hahaha
Não há possibilidade de não transcrever um trecho do livro:
“Através de suas práticas diárias, tornou-se aparente para mim que não era apenas O QUE da vida de uma velha que era imprtante, mas também recursos interiores_ o que havia dentro dela, que sabedoria e forçade coração haviam sido acumuladas…Parte semeada de propósito, aprte trazida pelo vento- mas tudo colhido com consciencia.
Em todos seus trabalhos e ofícios, as velhas falavam de como era importante questionar a vida insossa e os chamarizes da ganancia do consumo, e até necessariamente resistir a eles. Elas acreditavam que era não só nosso dever, mas também nossa função e prazer, por em perigo toda tirania (…), desafiar todas as ordens e normas que pudessem prejudicar ou arrasar nosso espírito, ou esvaziar nossa esperança. (…) Sob o efeito da generosidade e da oportunidade de ser generosa, uma impressionante combinação para um elixir de cura, elas desabrochavam.”

Eu quero muita coisa dessa vida. Mas no meio de tantos quereres, descobri uma coisa fundamental.
O que eu mais quero é sabedoria.
E sabedoria não é cultura, não, viu?!
Sabedoria é a cultura aplicada. Não adianta saber, só saber, só a teoria. Pra valer mesmo, só colocando em prática…

(Hoje “ganhei” a oportunidade de ser generosa com minhas companheiras de trabalho, fazendo hoje e sábado plantões de 24 horas, que me serão retribuidos em duas semanas.
Me sinto feliz em poder cooperar com minha equipe, sem demagogias.)

E eu que quero tanta coisa da vida, percebi, no meio da madrugada que, se for necessário congelar os projetos, se for impossível continuar engolindo a vida pelo mundo afora, mesmo assim, posso ter o mundo dentro de mim, onde quer que eu esteja. Mesmo sem sair de dentro de casa, mesmo sem ganhar milhões.
Nossas almas passeiam entre vidas para adquirir o que? Não é o novo C3 não!!
Para aprender a amar, apenas isso.
Todos os recursos de bem-estar, de luz e de amor estão dentro de nós.
Embora às vezes a gente pense que está nos braços de um bonitão.

* ESTE TÍTULO EM HOMENAGEM AO FILME “COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS”, QUE SIGNIFICA MAIS OU MENOS : “ILUMINE-SE”

RIDING THE GRAVY TRAIN

” Come right here dear boy
have a cigar
You come and go far
You gonna fly high
You never gonna die, you gotta make it,
It’s you time
They gonna love you!!”

Como se fosse (e sou, de fato) movida à energia solar, levantei logo ao detectar um azul no céu.
Limpar, lavar, arrumar, cozinhar. Escutei um dia que anjos só visitam casas limpas, arrumadinhas. Se é verade ou não, não sei. Mas no meu caso em particular, num ambiente em ordem (por dentro e por fora), posso conversar com meus anjos, trocar idéias e fazer umas fofoquinhas, que mulher é mulher.
Tenho dito para eles me sustentarem a fé, em mim, em meus projetos e na humanidade.
Para me manter inocente, ignorante da maldade do mundo.
Para que, mesmo nos dias chuvosos, brilhe um sol dentro de mim. Que eu tenha paciência, calma e a certeza de que não preciso me sentir ansiosa.
Que eu não me esqueça que os meus sentimentos são só meus, os dos outros também são apenas deles, e que não preciso “embarcar” nos maus sentimentos que outros me dedicam. E muito menos obrigar alguém a corresponder aos meus.

“And if we tell you the name of the game, boy
We’ll call it “riding the gravy train.””

AS VISITAS

Chegaram hoje à minha casa as minhas primas que estavam tão distantes, a ponto de pensar que haviam me esquecido.
Muito chatas, essas duas. Uma se chama auto-piedade, e a outra, auto-cobrança.
Dez minutos dentro da cabeça desta polvo: ” porracaraleo, perdi a hora! deveria ter acordado às seis e meia, e não às oito. Perdi a academia! ai, Senhor!! ESSA COZINHA PARECE UMA PRAÇA DE GUERRA!!Lavar a roupa, dar faxina nos quartos, fazer almoço, correr pra análise, correr a comprar os ingredientes da mega- sobremesa…Chora querida! Era pra estar de férias, deitada nas areias de Piratininga, mas vc tem que conseguir, vai dar conta, sim! Ah!! mas eu queria mesmo era uma praia. Larga tudo e vai pra praia, dane-se que vc perdeu a academia. Férias, tire férias de alguma coisa. Deixe as crianças almoçarem miojo, só hoje. Lavando a porra da louça que ninguém teve coragem de encarar… porque não fazer disso um exercício de amor? Para de chorar, caramba! Se eu tivesse um marido pra atormentar, no momento… Oh!! Jesus!! falta muito pra eu dar muito e muito gostoso denovo? Com essas mãos de peão boiadeiro, nunca mais eu pego ninguém, a não ser de luvas… Luvas são sexy! Rafaela, acorda sua irmã. O que? Torrada com geléia e nescau? Pra já! Tão gostoso, lavar… sabão, água fresca… céu azul do outono, me ajude a não morrer de mau humor! QUE HORAS CHEGA A MINHA VEZ? Você precisa aprender, menina a ser sua própria mãe, e das suas filhas. Arruma logo essa porra toda e pelamordedeus! NÃO ESPERE QUE UM PRÍNCIPE VENHA TE SALVAR… Seus prícipes só bagunçam sua vida, mais nada! Telefone,campainha. Arroz, feijão, máquina de lavar. telefone, crianças, vassoura. Preciso de férias!!”

É DANDO QUE SE RECEBE

Fazer o bem sem sabem a quem, lema que alguém me contou certa vez, ainda na década de 90.
Um trabalho vonluntário faz um bem gigante ao coração e à cabeça das pessoas. Muitas vezes, o início é chato, dá preguiça… Mas depois, quando a gente vê que está fazendo diferença para alguém, tudo se torna um prazer.
Minhas alunas de culinária são uma benção. Dez adolescentes, meninas meigas e carinhosas, vinte olhos a brilhar quando eu chego.
E os meus? Merrmão, sábado passado ao me despedir quase chorei, pois só vou vê-las denovo dia 30/05. Não conheço palavras pra descrever o bem estar que eu sinto quando estou com elas, quando elas vão me perguntando coisas e eu vou só falando, o que pra mim é corriqueiro, para elas é uma baita novidade.
Sem brincadeira, eu por mim estaria todos os dias convivendo com elas…
Da mesma maneira, quando eu sou espetacularmente fofa e eficiente no hospital, resolvendo uma coisa cabeluda pra um cliente, me dá uma sensação gostosa, de dever cumprido.
Enfim, ficamos sem empregada e eu to aqui, amarradona, fazendo coisas que eu antes achava um porre. É que eu acabei descobrindo que esta é uma forma maravilhosa de dar carinho aos que eu amo.
Outra coisa curiosa que acontece é que agente se esquece completamente dos próprios problemas, quando se doa aos outros. Alivia o coração e deixa as mágoas no lugar onde elas devem estar: no passado.
A mulherpolvo recomenda a todos um momentinho que seja em doação a outrem.
Vale á pena.

ENTREGANDO O OURO

Plantão sem internet.
Me aparece um médico dizendo que eu se clicar em cima do atualizar incessantemente a página abre, porque o servidor está é ocupado, e não bloqueado.
Mas quem tem paciência de fa zer isso? Eu não tenho.
passei as minhas doze horas de labuta com o jogo da florzinha inseparável companheiro de plantões há dois anos.
Mas como eu joguei, se eu tô sem internet??
Rá!
Sexta passada, eu achei um site para baixar o jogo pro computador. KKKKKK
Eu sou terrível!!!
Mas só uma mente insana como a minha pode ser inexplicavelmente tarada por essa coisa de organizar flores em um canteiro virtual. Coisa de mulérzinha norótica. É sempre o que salva os pacientes do hospital de escutar sonoros palavrões dignos de uma final de campeonato no maracanã. Limpa e higieniza minha mente de uma forma tão eficaz que a minha amada chefinha cansou de brigar e proibir, e decidiu liberar o joguinho para mim e para o bem da humanidade.
E hoje, foi meu último plantão com a chefe. Ela se aposenta, eu queria dar um belo presente, uma cartinha carinhosa, um forte abraço. Pela falta de intimidade, deixei o presente pra lá, e foi a melhor coisa que eu fiz, porque ela foi embora pelos fundos e nem me deu um tchau.
Magoei…
Pessoas passam por nossas vidas e muitas vezes não conseguem compreender a transformação que causam. Em três anos, essa mulher me mostrou o verdadeiro sentido do termo “servidor público”, e penso que, se não tivesse passado por ela, eu seria apenas mais uma funcionária pública preguiçosa e mau-humorada.
Uma grande pena ela não ter ouvido isso de minha boca.
Bem, acontece assim mesmo algumas vezes né?!
De qualquer maneira, fica a dica: sejam acessíveis às pessoas e ao carinho delas, tá legal?
Por ser muito reservadae distante, ela perdeu essa mega declaração de amor, que qualquer um (?) adoraria ouvir na véspera do último dias de trinta anos de trabalho.