SE FOSSE BOM, SE CHAMARIA LAZER!

“Este hospital nasceu da esperança dos que sofrem, e viverá da bondade dos que sentem”. (Dr. Camerino)
Olha, Doutor Camerino, eu sinto muito, mas minha bondade está se esgotando…
Sete da manhã: pronta e maquiada, sento na minha linda recepção, que tem um painel de praia e coqueiro. Antes mesmo de me logar, já tem umas três pessoas em pé, me perscrutando. (Nada me irrita mais que várias pessoas em pé me perscrutando).
Três entradas, dez entradas, quinze entradas. Um café foi coado e bebido por todos lá na copa. Menos por mim, que não tive tempo de ir até lá.
Experimente deixar alguém esperando atendimento pra fumar um cigarro, ou beber um cafè… A terra treme!
Aparecem pessoas a fim de matar trabalho, querendo apenas atestado. Acontece que os médicos daqui não dão. Só dão pros internados.
Oito da manhã. Tem um jovem gritando comigo, pois precisa do atestado.
Oito e quinze da manhã. telefone. MAMÃE. A faxineira não veio. Legal…
Minhas unhas feitas perderão metade do brilho depois do contato com os produtchos amanhã, antes do momento de lazer.
Nove da manhã: todas as 18 cadeiras estão ocupadas. A cada cinco minutos preciso pedir silêncio. A cada tentativa com o Twitter me aparece alguém, eu fico sem graça e fecho a página.
Dez da manhã. Pesquiso servidores de proxy para burlar o bloqueio ao orkut e ao msn. Imagino que com essas ferramentas o dia passará mais rápido. Uma louca conhecida, que gosta de se jogar no chão para despertar a piedade alheia está (adivinhem) jogada no chão do pátio. Vejo do meu lugar e sei, que em minutos ela estará fazendo escãndalos na minha recepção, e que só vai calar a boca depois que receber um prato de comida.
Meio-dia: espero ansiosa a rendição para o almoço.
Meio dia e meio: volto de barriguinha cheia, sorrindo, mas o sorriso se apaga, quando vejo que dona Helena, a maluca cai-cai, ainda está numa maca, na minha recepção. Rapidamente chamo maqueiros para “desovar” dona Helena bem longe de mim.
Uma e quinze: Um acidente entre um burro-sem-rabo e um ônibus em frente ao hospital. Duas pessoas feridas entram, com uma comitiva de quatro comadres histéricas. Uso meus últimos cartuchos de jogo de cintura. No meu belo balcão de granito, uma fileira de cinco pessoas me perscrutando. tem um saquinho de chá ao meu lado, quero muito ir ferver água no microondas, mas doentes não param de chegar.
Quatorze horas: horário de visitas. O que já estava ruim, fica ainda pior. Brotam pessoas de todas as partes, a maior parte nervosa e agitada. Me pergunto se sobreviverei. Passa pela minha cabeça a idéia de me queixar para a chefia. Mas a chefe sumiu. Parece que desistiu de ser chefe, e não tenho a quem recorrer. Mulher que é mulher aguenta tudo. Respira e continua. Dezoito cadeiras ocupadas, umas boas 15 pessoas em pé. Muito barulho. Sim, sou louca. Não tem outra desculpa. só louca pra passar doze horas aqui dentro.
Entra um, entra outro. Internações, reclamações, choro e ranger de dentes. É o mundo se acabando. E o telefone toca.
Num rompante de perspicácia, resolvo consultar a prévia do meu contra-cheque. Hum…Hummmmmmm… Delícia de adiantamento do décimo terceiro.
Aparece um PM bonitão (bonitão meeeeeeeeesmo) para conversar com as moças atropeladas. Atoron homens fardados.
Pausa para me imaginar sob o PM fardado, sobre o capô de um golzinho da PM. Fantasia tosca, mas serve para me tirar daqui um pouquinho.
Minha cabeça estão tão, mas tão cansada, que não consigo acertar o sexo das pessoas para quem faço as fichas. Número 1 para homem, número 3 para mulher. Troco a p* toda e escrevo 2 no campo sexo.
Chamo uma colega e negocio o plantão de domingo que vem. Negocio mais um pouco para trabalhar apenas oito horas na quarta que vem.
Quando olho direito, a recepção está quase vazia. Apenas doze cadeiras ocupadas.
Volto a sorrir.
Qualquer que seja o perrengue que eu por(des)ventura venha a auturar hoje, nada me aborrecerá mais. Terei até a próxima quarta para descansar…
Em tempo: inda apareceu um mendigo que, segundo o homem que o trouxe, havia sido assaltado. Estava com um talho feio na cabeça. Questionei. Quem assaltaria um velho tão pobre? Ele foi agredido por ter tentado impedir que roubassem a moto de outra pessoa…
E sabe quem voltou, lá pela hora do final do jogo do Brasil??
DONA HELENA…rsrsr A maluca cai-cai.
Ó dia… Ó azar…
Dezoito e vinte: espero não ter mais nenhuma surpresa. A boca já acostumou a falar “plantão geral, boa tarde” ao telefone, e “silêncio, por favor” para a platéia
recepção.
Beijosmetwitta.

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2 Respostas

  1. O stress esta no ar, hj aqui também a cúpula dos chatos é ignorantes resolveram aparecer. O pior de tudo é que o chefe da sempre a razão para os outros. Eu fico pensando, a gente estuda, faz o maior esforço, deixa filhos em casa, trabalha sob sol e chuva, o mínimo que nos compete é respeito, né.

  2. Ai!!! Fiquei cansada só de ler.
    Agora gostaria de dar minha contribuição, posso?

    Eu trabalho todos os dias numa fundação pública. Vou de trem e metro lotaaaados.
    Chego em casa já aos gritos com mochilas pelo caminho, tarefas de casa a serem feitas, banhos a serem tomados e brigas a apartar (tenho um casal de filhos no início da puberdade).
    Aí, acordo no sábado, achando que vou poder tirar um dia só para dormir. Então vem meu marido com a agenda de shows do final de semana. Varia entre 1 e 3 (ou 4 ou 5) por dia.
    Ele é mágico e eu sua assistente nos shows infantis (eu consigo me safar das demais categorias).

    Visualize:
    Carrega material, monta cenário (sob gritos de “começa, começa”).
    Pega pombo, tira pombo, leva pombo, bolsas, brindes, varinhas e coisas do tipo.
    Contém as crianças que, enlouquecidas com as ilusões, querem olhar dentro da caixa do mágico, querem espiar atras do cenário, querem participar dos números querem puxar a gravata do mágico.
    Acaba o show.
    Tirar foto dos anjinhos com o bendito pombo, desmonta cenário, guarda o material, carrega tudo e começa a saga outra vez.

    Ok! No final acaba sendo até divertido…

    beijo rouge

    Dani

    http://www.pontorouge.blogspot.com

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