UM SÁBADO, NO HOSPITAL.

Não conheço ninguém que goste de trabalhar sábado.
Eu já gostei muito mais do que gosto hoje. primeiro porque é bom estar em casa com as crianças nos dias que tem escola (no meu caso que o trabalho é de plantão, 12 por 60 horas). Depois, porque nos sábados não tem chefia. Também não tem trânsito, e nem aquele monte de gente no hospital (a parte ambulatorial só funciona de segunda a sexta).
Mas eu disse que hoje gosto menos e vou falar o porque.
Eu saio da minha casa sábado as cinco e meia da manhã pra pegar um cata-corno. Corno é bicho fácil de achar, em qualquer lugar, a qualquer hora. E às cinco e meia da manhã os cornos estão bêbados, fazendo bagunça nos ônibus, ouvindo funk sem fone de ouvido, falando alto, dando risada sem deixar ninguèm (eu) dormir em paz.
Aí a garota chega no trabalho já meio danada, porque além dos cornos, ela perdeu o Globo Repórter da véspera, na melhor das hipóteses. Na pior, perdeu uma boa noitada, uma festa daquelas.
Mas como é sábado, dá pra ir sem maquiagem, de vestido largo e curto, rasteirinha. Dá pra navegar na internet. Oh!! Não!! Bloquearam a internet e você morre de tédio com o pouco movimento.
Mas você é esperta, garota. Leva aquele livro que foi comprado a mais de um ano e nunca foi sequer folheado.
Sentada de lado pro balcão, com os pés em cima de uma cadeira, lendo, completamente tragada pela história.
É nessa hora que chega um senhora bela, cheirosa, bem vestida e cheia de bijuterias. A mulher tava realmete cheirando bem. Nada a ver com os tipos que eu atendo, diga-se de passagem.
“Eu quero falar com o palntonista. Trabalho na secretaria de saúde, e eu sou sobrinha…”
Olhei bem no fundo dos olhos dela e respondi: “qual o assunto?”
A mulher não gostou, e falou que sempre que vai lá eu trato ela mau. Logo eu que sou elogiada por quase todos que atendo. Eu sou, de fato, uma recepcionista fofa.
Fiquei vermelha com a bronca dela, pedi desculpas e insisti que precisava adiantar qual assunto ela queria tratar com o médico. Ela respondeu que é sobrinha do diretor do hospital. Eu fui chamar.
A mulher foi tratada pelo médico com a mesma objetividade que eu já havia ofertado, e saiu de lá cospindo marimbondos…
Volto à minha leitura. Telefone. Pra atender, bato com o cotovelo na mesa e levo um choque. CARALHO.
“Plantão Geral, bom dia!”
“Snif, snif. Bom dia. Tem emergência psiquiátrica??? è que eutô muito mal hoje. Eu tenho depressão e o gato, o periquito e o papagaio…”
Pra uma pessoa em depressão, a bichinha falou muito.
” Minha senhora, procure a emergência psiquiátrica da prefeitura, fica na Praça da harmonia.”

Imediatamente agradeci a Deus por NÃO ser recepcionista de emergência psiquiátrica. Já pensou??
Volto à leitura, aos pâes deuqeijo e ao café quentinho. Telefone.
“Plantão Geral, bom dia!”
“Bom dia! Tem oftalmologista de emergência aí?”
“Não senhora, apenas no Souza Aguiar e no Miguel Couto.”
“Mas é que a minha mãe operou faz rotina de glaucoma aí com vocês”
“Mas a oftalmologia só funciona de segunda a sexta. Hoje, só em hospital de emergência”
” Sabe o que qui é? è que a minha mãe, no ano retrasado…” E fala, fala… Tirei o fone do ouvido. Não dava pra interromper a narrativa da sujeita, mas meu ouvidinho não é penico e eu preciso me preservar de tantas lamúrias.
Nos finais de semana fica muito claro que as pessoas solitárias telefonam pro hospital com o intuito de bater papo. Mas eu só gosto de bater papo no telefone com a minha comadre, e olhe lá.
Final de plantão. Movimento do dia: Quatro atendimentos. Um sábado de sol, Puro-Osso de folga em casa, o mundo se distraindo e eu de plantão por quatro cidadãos ao vivo e uns dez ao telefone. Tudo bem, é pra pagar escola boa pra crianças.
Me chegam duas mulheres. Atentem que falatava apenas dez minutos promeu plantão acabar.
“To passando mal.”
Chamei o médico, que avaliou a paciente, disse que ela tava bem, a pressão boa e tchau e benção. Sem fazer ficha de atendimento.
Foi quando a amiga se revelou.
“vc não vai fazer ficha pra minha amiga?”
“Não, senhora, ela foi avaliada pelo médico, está bem, não precisa de medicalção e nem de exames. Ela está liberada e eu não vou fazer ficha.”
“MAS ISSO É UM ABSUUUURDO! (Aos berros) COMO É QUE AGENTE VAI COMPROVAR QUE ELA ESTEVE AQUI? E SE ELA CAIR NA RUA, COMO É QUE A GENTE PROVA???”
Provas são extremamente necessárias num tribunal. Aqui só é necessário que você cale essa boca e vá se embora.
E a sujeita continuava, sempre gritando.
“MAS EU NUNCA VI DISSO, NUMA EMERGÊNCIA…”
” Minha senhora, isso aqui não é umja emergência, é só o plantão do hospital”
“AH, É? ENTÃO PRA QUE SERVE ISSO AQUI?”
Eu expliquei. Direitinho e com paciência. Olhava o relógio e era como se o tempo tivesse parado. Fui lá dentro e chamei o médico, implorei, quase de joelhos, ajuda. Sem omitir que era pra acalmar uma louca encreiqueira.
O médico e a maluca bateram a maior boca, um mandando o outro pra cada lugar mais longe, e a suposta doente, coitada, com uma cara de boba, parecendo um andróide.
A surtada saiu batendo pé, segundo ela pra chamar a polícia. Mas o que será que ela queria mesmo?
Essas coisas me deixam arrasada. Fico com pena de quem é assim, que v~e tudo através de óculos de má fé, que sempre se sentem enroladas, ludibriadas e lesadas. Essa mulher sugou, de verdade, todas as minhas energias. Num dia cheio, durante a semana, eu não me sinto tão cansada como me senti no sábado passado.
Mas não acaba por aí. o cata-corno da volta pra casa estava também cheio de bêbados, e eu tentando ler o livro com um cara que estava em pé e que a toda hora se abaixava pra falar com uma pessoa que estava sentada. A cada vez que ele se abaixava, a bunda dele ficava praticamente colada na minha cara. Definitivamente eu vou pro céu quando morrer.

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Uma resposta

  1. hehehe…amiga,tive que rir,desculpe.Mas que castigo é esse de trabalhar num sábado de sol e ainda aguentar todos os loucos desocupados que resolvem matar o tempo num hospital? Vc é muito fofa MESMO. Se fosse eu… já estaria despedida,com certeza. O livro ía parar na cabeça da cheirosa,depois no maxilar da encrenqueira. Realmente meu pavio é curto e minha tolerância para esse tipo de gente é zero.
    Bjs e apareça.

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